Tamara Klink pede que parem de comprar “Bom dia, inverno”
“Bom dia, inverno” liderou a lista dos mais vendidos do Brasil em julho, com 9.560 exemplares. A autora foi ao Instagram pedir que ninguém compre mais: quer que os livros que já existem circulem entre leitores e cheguem às bibliotecas.
- Tamara Klink, 29, publicou um vídeo pedindo aos leitores que parem de comprar “Bom dia, inverno” — o livro mais vendido do Brasil na lista geral da Nielsen-PublishNews em julho, com 9.560 exemplares.
- O pedido dela é para emprestar, doar e trocar os exemplares que já existem, e para levar o livro à biblioteca mais próxima de casa.
- A conta ambiental que ela faz é correta: a emissão de um livro acontece toda na produção. Cada novo leitor do mesmo exemplar divide esse custo por mais um e não gera nenhum novo.
Tamara Klink chegou onde quase nenhum autor brasileiro chega: o primeiro lugar da lista geral dos mais vendidos, três meses seguidos entre os campeões. Em 5 de agosto, ela publicou no Instagram um vídeo de quase três minutos para pedir exatamente o contrário do que a posição sugere.
“Eu preciso falar uma coisa que é polêmica, mas vocês vão entender. Não comprem mais esse livro, Bom Dia, Inverno“, diz ela, segurando o próprio exemplar diante da câmera. A legenda do post tem três palavras: “Obrigada, leitores!”.
Tamara Klink e o Sardinha
arraste para o ladoFotos do perfil oficial da velejadora.
O que ela pediu, exatamente
O pedido não é para ninguém deixar de ler. É para parar de fabricar exemplares novos de um livro que já circula aos milhares. Ela quer que quem tem passe adiante, que quem não tem peça emprestado, e que os leitores levem cópias para bibliotecas públicas — inclusive indicando a ela quais bibliotecas ainda não têm o título, para que exemplares sejam encaminhados.
É muito triste na vida de um livro só ser lido uma vez. Tem um monte de papel, um monte de energia que foi gasta da natureza para esse livro existir.
Tamara Klink, em vídeo publicado no Instagram em 5 de agosto de 2026
Ela também antecipou a objeção mais comum, a de quem não empresta com medo de estragar: “Ah, mas estraga o livro. Ah, mas eu gosto de escrever. Mas não é ainda mais legal se o livro tiver várias marcações? Não é ainda mais legal se o livro puder fazer mais gente ter essa experiência que você teve?”

Por que a conta dela fecha
A pegada de um livro impresso é quase toda de produção: derrubar a árvore, fazer a celulose, imprimir, encadernar, transportar da gráfica ao depósito e do depósito à livraria. Depois que o objeto existe, ler custa zero. Isso significa que a emissão é um valor fixo por exemplar, não por leitura.
Daí sai a aritmética simples que sustenta o pedido. Um exemplar lido por uma pessoa carrega 100% do próprio custo ambiental. O mesmo exemplar lido por dez carrega 10% por leitura. Não existe versão do argumento em que comprar um livro novo polua menos do que passar adiante um que já foi impresso — e é por isso que biblioteca é, em termos ambientais, a tecnologia de leitura mais eficiente já inventada.
Agora dá para ganhar dinheiro só conversandoA tarefa nova paga pela conversa gravada, sobre qualquer assunto.Ajudo · Ganhe dinheiroVer as regrasEmprestar e doar é legal — e a lei diz por quê
Vale registrar o que muita gente não sabe: passar o próprio exemplar adiante não fere direito autoral nenhum. O direito do autor incide sobre a reprodução da obra, não sobre o destino do objeto físico depois de vendido. Comprou, o exemplar é seu — pode emprestar, doar, revender em sebo ou deixar na estante de um prédio. O que a lei proíbe é fotocopiar, escanear e distribuir cópias.
É a diferença entre o livro e o streaming. Uma assinatura não te dá objeto nenhum para emprestar, e é justamente por isso que o pedido de Tamara só funciona no papel. Quem comprou o e-book de Bom dia, inverno não tem o que passar para frente.
Quanto isso custa ao bolso dela
O gesto tem preço, e dá para estimá-lo. O livro sai por R$ 69,90 no site da Companhia das Letras. No contrato editorial brasileiro, o autor costuma ficar com algo entre 8% e 12% do preço de capa — na faixa de tiragem em que Bom dia, inverno está, a ponta de cima é a mais provável. Sobre os 9.560 exemplares vendidos só em julho, isso dá aproximadamente R$ 67 mil em um mês.
Pedir que esse fluxo pare é abrir mão de dinheiro real, e não de uma bandeira barata. Para a editora, que fica com fatia bem maior, a conta é ainda mais alta — e ela não foi consultada, porque o vídeo é da autora, no perfil da autora.
Quem é Tamara Klink
Filha do navegador Amyr Klink e da fotógrafa Marina Bandeira Klink, Tamara é arquiteta formada em Nantes, na França, e velejadora solitária. Em 2021 atravessou o Atlântico sozinha, da França a Recife. Entre outubro de 2023 e maio de 2024 passou o inverno num fiorde da Groenlândia com o barco preso no gelo — 86 dias sem ver o Sol —, e virou a primeira mulher a invernar sozinha no Ártico. Em setembro de 2025 completou a Passagem Noroeste em 45 dias, da Groenlândia ao Alasca.
Bom dia, inverno é o relato desses oito meses. Saiu pela Companhia das Letras em maio de 2026, com 256 páginas. Antes dele vieram Férias na Antártica, escrito quando ela tinha 13 anos, Mil milhas, Um mundo em poucas linhas e Nós: o Atlântico em solitário. O veleiro se chama Sardinha, e aparece em quase todas as fotos que ela publica.
O que a Foka acha: tem uma ironia embutida aqui que vale dizer em voz alta: pedir para não comprar é a melhor campanha de marketing que esse livro poderia receber, e a chance de Bom dia, inverno vender mais depois do vídeo é grande. Isso não invalida o gesto — só mostra que a lógica do mercado engole até o discurso contra ela. O que sobra de verdadeiramente útil é a parte que ninguém repete: a biblioteca pública é o melhor negócio ambiental e social que o livro já teve, e no Brasil ela vive de sucata orçamentária. Se o recado da Tamara render doação de acervo em vez de repost, aí sim terá valido. Enquanto isso, a atitude mais coerente que um leitor pode ter hoje é olhar para a própria estante e ver quantos livros lidos uma vez estão ali há anos sem servir a ninguém.
— Cláudia Fofoka
Com informações de Yuri Ferreira, na Revista Fórum, e da ficha do livro na Companhia das Letras. O vídeo está no perfil da autora. Mais em Famosos, em Larissa Manoela e o contrato que a Justiça derrubou e em George R.R. Martin sobre o livro que não termina.








