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George R.R. Martin, 77, revela depressão e perda de amigos

O autor de "Game of Thrones" voltou ao blog depois de quase seis meses: "Perdi amigos. Enfrentei tristeza e depressão. O pior ainda pode estar por vir". O texto não cita "Os Ventos do Inverno".

George R.R. Martin de boina e casaco preto em evento ao ar livre
George R.R. Martin, 77, autor de "As Crônicas de Gelo e Fogo". Reprodução/Rolling Stone Brasil
  • George R.R. Martin, 77, voltou ao blog dele depois de quase seis meses para dizer que perdeu amigos e enfrentou tristeza e depressão.
  • “O pior ainda pode estar por vir”, escreveu o autor de “Game of Thrones”, que também falou sobre envelhecer.
  • O texto não menciona “Os Ventos do Inverno” — o livro que os leitores esperam há cerca de 15 anos.

George R.R. Martin, autor da saga “As Crônicas de Gelo e Fogo”, que virou “Game of Thrones” na HBO, publicou no dia 3 um texto no próprio blog, o Not a Blog, com o título “Antes tarde do que nunca”. Era o primeiro post escrito por ele desde 19 de fevereiro — os do intervalo foram feitos pelos assistentes.

O assunto do texto é o ano dele. As informações são de James Hibberd, do The Hollywood Reporter, e de David K. Li, da NBC News.

George R.R. Martin em imagens

arraste para o lado
  • George R.R. Martin de boina e casaco preto em evento ao ar livre.
    Martin em evento de “O Cavaleiro dos Sete Reinos”. Reprodução/Rolling Stone Brasil
  • O escritor apoiado numa espada, cercado de armas de cenário.
    O autor entre adereços do universo de Westeros. Reprodução/The Hollywood Reporter
  • Martin posa diante do painel de A Casa do Dragão.
    Na estreia de “A Casa do Dragão”, derivada de “Game of Thrones”. Reprodução/NBC News
  • O escritor sorri diante do painel do Emmy.
    Martin em cerimônia do Emmy. Reprodução/Spin Off
  • George R.R. Martin fala ao microfone num painel.
    O autor num painel público. Reprodução/IBTimes UK

Mais gente de série e cinema na editoria de famosos.

O que ele escreveu

Este ano tem sido… estressante, para dizer o mínimo. Aconteceu tanta coisa que virou coisa demais. Coisas ótimas. Sonhos se realizando. Mas houve pesadelos também. Perdi amigos. Enfrentei tristeza e depressão. O pior ainda pode estar por vir. Fiz 77 anos em setembro passado e, olha, envelhecer não tem graça nenhuma. Mas também houve momentos incríveis.

George R.R. Martin, no blog “Not a Blog”

Ele agradeceu à equipe de assistentes, que trabalhou sem parar para evitar que ele ficasse “cada vez mais atrasado”, e avisou que voltará a postar — só que os textos devem ser “curtos e apressados”. E fechou o trecho com a frase mais dele que existe:

Suponho que seja assim a vida. Claro que eu já sabia. Se você leu minhas histórias, você sabe.

George R.R. Martin
George R.R. Martin apoiado numa espada, cercado de armas de cenário
Martin voltou ao blog depois de quase seis meses sem escrever pessoalmente. Reprodução/The Hollywood Reporter

A palavra que não aparece no texto: “Os Ventos do Inverno”

O sexto livro de “As Crônicas de Gelo e Fogo” não é mencionado uma única vez. É a ausência mais barulhenta do post, porque é o que o leitor procura toda vez que o nome dele aparece. A espera passa de 15 anos: o quinto volume, “A Dança dos Dragões”, saiu em 2011.

Martin já explicou o mecanismo do travamento, e a explicação é técnica, não preguiça. Em entrevista ao Hollywood Reporter em janeiro, ele descreveu um episódio concreto:

Escrevi um capítulo do Tyrion que eu amei. Aí olhei para ele e disse: “Não posso fazer isso, vai mudar o livro inteiro. Vou transformar isso numa série de sonhos. Não! Isso também não funciona…”

George R.R. Martin, ao The Hollywood Reporter

Por que uma saga assim trava — o mecanismo

Vale entender, porque explica mais sobre escrita do que sobre um autor específico.

1. Cada personagem-narrador multiplica o problema. “Gelo e Fogo” é contado por pontos de vista alternados, e o número deles cresceu livro a livro. Cada ponto de vista novo é um fio que precisa chegar ao mesmo lugar, na mesma hora, com o mesmo peso. Não é soma, é combinação: dobrar os fios não dobra a dificuldade, multiplica.

2. Uma escolha lá atrás fecha portas aqui na frente. Foi isso que aconteceu com o capítulo do Tyrion. Num romance fechado, mudar um capítulo custa um capítulo. Numa série de seis volumes com mil páginas cada, mudar um capítulo pode obrigar a reescrever o que veio antes — e comprometer o que ainda nem foi escrito.

3. A série de TV chegou ao fim antes do livro. Esse é o fator que ninguém previu em 2011. “Game of Thrones” acabou em 2019 e revelou o destino dos personagens para o mundo inteiro. O livro perdeu o trunfo do ineditismo e ganhou uma régua: agora ele não pode apenas ser bom, ele precisa ser melhor que um final que muita gente detestou. Escrever com essa comparação em cima é um problema novo, e não existe técnica que resolva.

O próprio Martin diz que odiaria não terminar “Os Ventos do Inverno”, e que desistir seria “fracasso total”.

O que deu certo no ano dele

  • Nove indicações ao Emmy para a primeira temporada de “O Cavaleiro dos Sete Reinos”, da HBO — incluindo, nas palavras dele, “a grande”, a de melhor série dramática.
  • “A Casa do Dragão” voltou para a terceira temporada, com boa recepção de crítica e audiência forte.
  • “Game of Thrones: The Mad King” subiu ao palco da Royal Shakespeare Company, no Reino Unido, com a temporada inteira esgotada ainda em pré-estreia.
  • A segunda temporada de “O Cavaleiro dos Sete Reinos” é esperada para o começo do ano que vem, baseada na novela “A Espada Juramentada”.

Se você está passando por algo parecido com o que ele descreveu, o CVV atende 24 horas, de graça, pelo telefone 188, e também por chat em cvv.org.br. O atendimento é anônimo.

Outra figura conhecida da internet falou de saúde mental esta semana: o blogueiro Perez Hilton foi hospitalizado após uma live no TikTok. Mais gente de série e cinema na editoria de famosos.

O que a Foka achaUm homem de 77 anos escreveu que perdeu amigos e enfrentou depressão, e boa parte da reação na internet foi contar quantos anos falta o livro. Essas duas coisas estão ligadas, e não do jeito que os fãs acham: a pressão de quinze anos é parte do que ele está descrevendo, não algo separado dela. Martin não deve um livro a ninguém — ele vendeu cinco e entregou cinco. O sexto sai quando sair, e a frase que ele deixou no post responde à cobrança melhor do que qualquer nota de editora: se você leu as histórias dele, já sabia que ninguém tem final garantido.

— Cláudia Fofoka

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