Renato Scarpin faz peça para 4 e baixa ingresso a R$ 21,90
Duas das quatro pessoas na plateia eram amigas dele; as outras duas nunca tinham ido ao teatro. “Com quatro pessoas, não consigo pagar nem o técnico”, disse o ator, que escreve, produz e interpreta o próprio solo. Não há sessão no dia 16.
- Renato Scarpin, 54, se apresentou para quatro pessoas num teatro de 300 lugares no domingo (2). Duas eram amigas dele; as outras duas nunca tinham ido ao teatro.
- Ele desabafou em vídeo na quinta (6) e anunciou o corte: o ingresso de “7×1 – Uma Comédia Boa pra Cachorro” cai de R$ 100 para R$ 21,90 nos domingos de agosto — menos no dia 16, quando ele tem outro compromisso.
- A conta explica a decisão. O custo de uma peça é fixo e a poltrona vazia rende zero — 19 pessoas a R$ 21,90 já pagam mais do que quatro a preço cheio.
O Teatro Bibi Ferreira, na Bela Vista, em São Paulo, tem 300 lugares. No domingo passado, quatro estavam ocupados. Renato Scarpin subiu ao palco assim mesmo e fez os sete personagens de “7×1 – Uma Comédia Boa pra Cachorro”, o solo que ele escreve, produz e interpreta.
Na quinta-feira à noite, o ator publicou um vídeo nas redes contando a história. O tom não é de lamento: ele começa pelo detalhe que achou bonito. Das quatro pessoas, duas eram amigas — as outras duas nunca tinham pisado num teatro na vida.
Entre tantas peças em cartaz em São Paulo, escolheram me ver. Saíram encantados, amaram, falaram que vão recomendar para todo mundo ir assistir.
Renato Scarpin, em vídeo publicado no Instagram em 6 de agosto
Perguntado por amigos se vale a pena fazer para tão pouca gente, ele responde que faria para uma só: “a pessoa se dignou a sair de casa para me ver. É uma questão de respeito com a pessoa, com o público”. E aí vem a parte que dói: “com quatro pessoas, não consigo pagar nem o técnico. Tenho que tirar do bolso para trabalhar”.
Por que baixar o preço para R$ 21,90 é a decisão certa
Parece desespero e é aritmética. O custo de uma temporada de teatro é quase todo fixo: aluguel da sala, técnico de som e luz, cenário, divulgação, montagem. Esses valores não mudam se a plateia tem 4 ou 300 pessoas. Já o custo de receber mais um espectador na sala é praticamente zero — a poltrona já está lá, a luz já está acesa, o ator já está no palco.
Quando o custo marginal é zero, qualquer ingresso vendido acima de zero melhora o resultado. Uma poltrona vazia não rende nada e não economiza nada. Foi por isso que ele derrubou o preço em quase 80%: com o ingresso a R$ 100, quatro pessoas deixaram no máximo R$ 400 na bilheteria. A R$ 21,90, bastam 19 pessoas para superar esse número — e a sala tem 300 lugares.

Existe ainda um efeito que o preço cheio não compra: sala com gente. Comédia depende de risada coletiva, e risada é contagiosa — o mesmo texto rende mais com 80 pessoas do que com 4. Encher a casa barato também produz o que ele mais precisa agora, que é boca a boca. Foi exatamente o que as duas estreantes prometeram fazer.
“Não tem lei, não tem incentivo, não tem patrocínio”
A frase resume a diferença entre dois teatros que dividem a mesma cidade. De um lado, produções que rodam com dinheiro de lei de incentivo — Rouanet, no plano federal, e ProAC, no estadual paulista. De outro, o ator que se autoproduz e paga tudo antes de vender o primeiro ingresso.
O caminho do incentivo não é impossível, é lento e burocrático: o projeto precisa de proponente com CNPJ, aprovação prévia, prestação de contas e, no caso da Rouanet, uma empresa disposta a abater o valor no imposto dela. Entre inscrever e receber, passam meses — às vezes um ano. Quem quer estrear no próximo domingo não tem esse tempo, e é aí que a conta vira o bolso do próprio artista.
Quem é Renato Scarpin
Ele completa 55 anos em 24 de agosto e tem carreira de televisão: fez o arquiteto Jean Miguel em “Avenida Brasil” (Globo, 2012), esteve em “Uma Rosa com Amor” (SBT, 2010) e em “Torre de Babel” (Globo, 1998). É ator, diretor e autor — e no espetáculo atual faz sozinho sete personagens, entre eles um político liso, um jogador fútil e uma criança viciada em telas.
A peça vinha do Teatro Ruth Escobar e estreou no Bibi Ferreira em agosto. Ele não pretende parar: “aprendi com meu pai a ter resiliência”.
Serviço
- Peça: “7×1 – Uma Comédia Boa pra Cachorro”, solo com Renato Scarpin
- Onde: Teatro Bibi Ferreira — Av. Brigadeiro Luís Antônio, 931, Bela Vista, São Paulo
- Quando: domingos, às 19h. Não há sessão no dia 16 — o ator tem outro espetáculo agendado.
- Quanto: R$ 21,90, preço único, nos domingos de agosto (era R$ 100 a inteira e R$ 50 a meia)
- Onde comprar: plataforma Sampa Ingressos
O que a Foka acha: o desabafo viralizou pela parte triste, e a parte importante é outra. Duas das quatro pessoas daquela plateia nunca tinham ido ao teatro — e saíram querendo levar mais gente. Esse é o dado que nenhuma lei de incentivo entrega e nenhuma bilheteria mede: teatro em São Paulo não tem só problema de dinheiro, tem problema de hábito. Uma cidade com centenas de peças em cartaz e um público que, em boa parte, nunca entrou numa sala. Scarpin acertou ao tratar o preço como a barreira concreta que ele é, em vez de reclamar de plateia vazia e seguir cobrando R$ 100. Vinte e um reais e noventa não paga a conta dele sozinho — mas é a diferença entre alguém dizer “hoje não” e alguém descobrir, aos cinquenta e poucos anos, que gosta de teatro.
— Cláudia Fofoka
Com informações da revista Quem, de Mariana Valbão, na CNN Brasil, e de Fábia Oliveira, no Metrópoles. O vídeo está no perfil do ator. Mais em Famosos, em Ricardo Tozzi e a virada que ele fez aos 30 e em Cássio Gabus Mendes deixa a novela.