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Ariana Grande faz pausa na carreira: doença ou plano antigo?

A cantora parou o show em Chicago para explicar o hiato e negar que ele tenha vindo das críticas ao seu corpo. O clipe que acendeu a discussão trata justamente do julgamento do corpo de mulheres pela indústria.

Ariana Grande em close, cabelo preso, cercada por fotógrafos desfocados ao fundo
Ariana Grande, 33, anunciou pausa nos palcos depois da turnê "Eternal Sunshine". Reprodução/Notícias ao Minuto
  • Ariana Grande parou o show de segunda-feira (3), no United Center de Chicago, para dizer aos fãs que vai se afastar dos palcos por tempo indeterminado quando a turnê “Eternal Sunshine” acabar.
  • Ela negou que a decisão tenha vindo das críticas ao seu corpo: “Não foi reativo nem impulsivo. É um plano que eu fiz silenciosamente há muito tempo”.
  • O estopim da discussão foi o clipe de “petal” — um vídeo que trata justamente do julgamento do corpo de mulheres pela indústria do entretenimento.

Ariana Grande, 33, interrompeu o próprio show na noite de segunda-feira (3), no United Center, em Chicago, para ler um texto que tinha escrito antes de subir ao palco. Anunciou que vai parar depois da turnê “Eternal Sunshine” e que a decisão não tem a ver com o que andaram falando do corpo dela nos últimos dias.

A ordem dos fatos explica por que ela precisou dizer isso. Na sexta-feira anterior (31/7), saiu o clipe de “petal”, faixa-título do oitavo álbum. Em dois dias, a conversa sobre o vídeo já não era sobre o vídeo — era sobre a magreza da cantora. No terceiro dia, ela parou o show.

O que “petal” mostra

O clipe é filmado em preto e branco e em VistaVision, formato de tela larga que Hollywood usava nos anos 1950 — a escolha estética já anuncia sobre o que se está falando. Ariana vive Pepper, uma artista que chega a Hollywood e passa por uma sequência de testes diante de uma banca formada por homens. A cada tentativa ela troca de roupa, troca de jeito, troca de voz. Nunca é aprovada.

Num dos momentos do roteiro, um bilhete de um olheiro fictício avalia Pepper e conclui que a moça “não faria mal perder alguns quilos”. É uma piada escrita meses antes da estreia, sobre um julgamento inventado, dentro de um vídeo que existe para expor esse tipo de julgamento. A informação está no levantamento da redação do Vagalume.

O clipe de “petal”, em que Ariana Grande vive uma cantora reprovada em testes por uma banca de homens. Reprodução/Canal oficial de Ariana Grande

A reação fez o que o clipe descrevia

Os comentários mais curtidos na página do vídeo no YouTube não falam da música nem da história de Pepper. Falam do corpo da cantora. O primeiro deles passou de 22 mil curtidas: “Quem vai dizer a ela que sentimos falta dela com uma aparência saudável, e não da música antiga?”. Outros repetem a fórmula — preocupação declarada, avaliação física entregue junto.

Do outro lado apareceu um bloco de fãs incomodado com a onda. O resumo mais repetido: “Envergonhar uma mulher por ser magra continua sendo body-shaming“. Para esse grupo, o foco no corpo dela apagou a mensagem do trabalho.

Ariana Grande de vestido preto posa em tapete vermelho cercada de flashes
A cantora está em turnê desde o começo do ano com “Eternal Sunshine”, seu primeiro giro em seis anos. Reprodução/Billboard

Por que ela falou do palco, e não das redes

Vale entender o mecanismo, porque ele se repete com todo artista grande e quase sempre termina do mesmo jeito.

O ciclo tem quatro etapas. Um frame do clipe vira print. O print vira postagem com milhares de respostas. A postagem vira matéria de portal, que precisa de um gancho e usa o próprio frame como imagem. E a matéria vira a versão oficial do assunto — a essa altura, o corpo da pessoa já é notícia sem que ela tenha dito uma palavra.

A resposta escrita alimenta o ciclo. Uma nota do assessor ou um story no Instagram entram como quinta etapa: reagem ao enquadramento que já foi montado, e por isso o confirmam. Quem responde depois responde dentro da moldura do outro.

Falar ao vivo quebra a corrente. No palco, diante de 20 mil pessoas e de todos os celulares da arena, a fala dela vira a fonte primária, com áudio, contexto e duração completos. Não sobra espaço para “uma fonte próxima disse”. Foi exatamente isso que ela nomeou, em declaração apurada por Ana Cavalcante, no Midiamax:

Essa é a minha verdade. Estou falando isso para estabelecer limites. Quando uma fala não vem de mim, ela pode ganhar outras proporções. E não deixem o mundo decidir isso e projetar, ok?

Ariana Grande, no palco do United Center, em Chicago

A cantora reforçou que já vinha planejando o afastamento, como registrou Fábia Oliveira, no Metrópoles:

O anúncio feito ontem não foi algo reativo nem impulsivo. É um plano que venho planejando discretamente há muito tempo. É uma decisão que foi tomada de forma consciente e com autonomia. Limites precisam ser estabelecidos. Seres humanos precisam fazer uma pausa às vezes.

Ariana Grande

O que muda na prática: ela para de cantar?

Não. O que foi anunciado é pausa nos palcos e redução da exposição pública, sem prazo de volta. A agenda até lá está de pé:

  • A turnê continua. “Eternal Sunshine” segue até Londres, onde ela faz dez apresentações entre 15 de agosto e 1º de setembro. É o giro final.
  • O álbum está no ar. “petal”, o oitavo disco, saiu em 31 de julho. O primeiro single, “Hate That I Made You Love Me”, estreou em 1º lugar na Billboard Hot 100.
  • O afastamento é da vida pública, não do contrato. Nada foi dito sobre parar de gravar — o que sai de cena é a rotina de turnê e aparição.

Vale lembrar que esta é a primeira turnê dela em seis anos, e que as conversas sobre o corpo da cantora circulam desde a estreia de “Wicked”, em 2024. O contexto do lançamento de “petal” e do personagem Pepper foi detalhado por Hannah Dailey, na Billboard.

Mulher famosa decidindo sozinha o que mostrar do próprio corpo rende texto por aqui: veja também por que Gretchen escolheu raspar a cabeça ao vivo antes do transplante capilar. Mais lançamento e bastidor de disco na editoria de música.

O que a Foka achaO clipe de “petal” gastou seis minutos e meio para mostrar uma mulher sendo medida por uma banca que decide se ela serve. O público assistiu e foi medir. Não é ironia: é a demonstração de que o hábito é tão automático que sobrevive até quando alguém o coloca na tela e aponta para ele. E há um detalhe que arruma a discussão inteira — a única pessoa que sabe o estado de saúde de Ariana Grande é ela, e ela falou. Depois disso, “preocupação” vira nome bonito para palpite. A jogada dela de falar no palco, sem intermediário, foi a coisa mais bem calculada da semana: transformou o assunto de “o que está acontecendo com ela” em “o que ela disse”. São matérias diferentes, e só uma delas é da conta do público.

— Cláudia Fofoka

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