Quem era César Gastélum, morto a tiros durante live no México
O humorista de 25 anos transmitia ao vivo com dois amigos em Culiacán quando foi atacado. As autoridades investigam se publicações em que ele citava uma facção do Cartel de Sinaloa têm relação com o crime.
- César Gastélum, 25, humorista com 616 mil seguidores no TikTok, foi morto a tiros na noite de terça-feira (4) em Culiacán, no México, enquanto transmitia ao vivo com dois amigos.
- O Gabinete de Segurança federal investiga se o ataque tem ligação com publicações em que ele citava uma facção do Cartel de Sinaloa.
- É o segundo criador de conteúdo mexicano morto durante uma transmissão em pouco mais de um ano.
César Daniel Nolasco Gastélum, o Cesarín, tinha 25 anos, era formado em Direito e ficou conhecido no norte do México por vídeos de humor. Na noite de terça-feira (4), fazia uma transmissão ao vivo na plataforma Kick, ao lado de dois outros criadores, no estacionamento de uma lanchonete em Culiacán, capital do estado de Sinaloa. Dois homens de capacete pararam uma moto ao lado do grupo e atiraram. Ele morreu ali.
O local do ataque fica a poucos metros da sede da Procuradoria-Geral de Sinaloa, como registrou Lorena Pacheco, no Metrópoles. A transmissão continuava no ar quando aconteceu, e é por isso que o caso saiu do noticiário local mexicano e chegou ao Brasil em menos de 24 horas.
Quem era o Cesarín
Gastélum começou a publicar em 2021, na pandemia, com vlogs e vídeos sobre a própria rotina — tocava baixo num grupo local e mostrava isso. O salto veio em 2023, com um personagem: o “Compasexor”, um conselheiro de bairro que resolvia problemas do dia a dia com humor negro e o vocabulário exato de Sinaloa. O tipo de piada que só funciona para quem é de lá.
Chegou a 616 mil seguidores no TikTok, 132 mil no Instagram e 17,2 mil inscritos no YouTube. Formou-se em Direito na Universidad Autónoma de Sinaloa em julho de 2024. Entre os personagens do repertório havia um detalhe que hoje é parte da investigação: ele fazia paródias dos “punteros” — as pessoas que os grupos criminosos espalham pelas ruas para vigiar áreas e avisar quando a polícia se mexe. O perfil dele foi reconstituído pela Univision.

O que as autoridades dizem
Na quarta-feira (5), o Gabinete de Segurança federal informou que apura se o ataque tem relação com “diversas publicações” nas redes, “em algumas das quais Gastélum fez referência a uma facção de um grupo criminoso”. Câmeras de segurança da região estão sendo analisadas junto com a Procuradoria de Sinaloa, segundo apuração de Uriel Blanco e Mauricio Torres, na CNN.
Os autores devem ser presos e, se necessário, o mentor intelectual por trás disso, e devemos descobrir por que esse homicídio deplorável ocorreu.
Claudia Sheinbaum, presidente do México, em coletiva
Por que criador de conteúdo virou alvo no México
Vale entender o mecanismo, porque ele explica por que casos assim passaram a se repetir — e porque a mesma lógica já apareceu em outros países.
Culiacán está em guerra interna desde setembro de 2024. Duas facções do Cartel de Sinaloa — Los Mayos e Los Chapitos — disputam as principais cidades do estado. Os nomes vêm dos fundadores da organização, Ismael “Mayo” Zambada e Joaquín “Chapo” Guzmán, hoje presos nos Estados Unidos e transformados em rivais pelos próprios herdeiros. Um relatório do International Crisis Group aponta que os dois lados usam armamento pesado, veículos blindados e drones, e recorrem à violência demonstrativa para intimidar o outro.
Em território disputado, ser citado é escolher lado. Numa cidade partida ao meio, uma piada sobre uma das facções não é lida como piada: é lida como posicionamento. E o humor regional que fez o sucesso do Cesarín trabalhava exatamente com esse material — imitar um puntero exige conhecer como a vigilância funciona, e mostrar que se conhece é o que dá graça.
A transmissão ao vivo é uma localização em tempo real, aberta. Aqui está a parte técnica que muda tudo. Um vídeo gravado é publicado depois, editado, com o autor já longe do lugar. Uma live é o oposto: informa endereço, hora e quem está junto, para qualquer pessoa, de graça e sem atraso. O modelo de negócio do criador de conteúdo pede presença constante e localização reconhecível — é isso que gera intimidade com o público. Num ambiente de disputa armada, a mesma exposição que constrói audiência funciona como serviço de rastreamento.
E o ataque no ar é a mensagem. Quem age durante uma transmissão sabe que o registro vai circular sozinho, sem custo e sem intermediário. A live deixa de ser o lugar onde a vítima estava e vira o canal de distribuição do recado — que é precisamente o efeito que a violência demonstrativa procura.
Não é o primeiro caso
Em maio de 2025, a influenciadora de beleza Valeria Márquez foi morta a tiros durante uma transmissão no TikTok, num salão em Zapopan, no estado de Jalisco. No fim de julho deste ano, as autoridades mexicanas prenderam Ramón Ángel Álvarez Ayala, apontado como líder de Los Rs, célula ligada ao Cartel Jalisco Nova Geração, acusado de ter mandado matá-la e também de ordenar o assassinato do prefeito de Uruapan, Carlos Manzo, em novembro de 2025.
Transmissão ao vivo virando notícia grave rende texto por aqui: veja também o que aconteceu com Perez Hilton durante uma live no TikTok. Mais plataforma, criador e cultura de rede na editoria de internet.
O que a Foka achaA conversa sobre segurança de criador de conteúdo ainda trata a exposição como se fosse só reputação — o medo do cancelamento, do print, do comentário. O caso do Cesarín mostra o outro custo, que é físico e não tem nada de abstrato: transmitir da rua é publicar a própria coordenada. A plataforma que paga pela presença ao vivo não oferece nenhuma proteção correspondente, e a conta de risco fica inteira com quem está segurando o celular. Enquanto a métrica que remunera for tempo de transmissão, esse desenho não muda por vontade de ninguém. E há um ponto que não se resolve com regra de plataforma: em Culiacán, o humor sobre o crime é humor sobre o vizinho.
— Cláudia Fofoka