Wagner Moura no Bial: o sotaque, os filhos e os 7 projetos
Em entrevista gravada em Atenas, o ator disse que não vai apagar o sotaque brasileiro em filmes estrangeiros, falou dos três filhos entrando na profissão e deixou à mostra uma agenda de sete produções.
- No “Conversa com Bial” gravado em Atenas, Wagner Moura disse que não pretende apagar o sotaque brasileiro em filmes estrangeiros: “Represento uma parcela gigante das pessoas que moram naquele país”.
- Ele falou também dos três filhos entrando na profissão — o mais velho, Bem, estreia como ator num filme de Monique Gardenberg.
- São sete produções na fila do ator, de série da Lucasfilm a um longa que ele mesmo dirige.
Wagner Moura, 50, foi ao “Conversa com Bial” desta terça-feira (4) numa entrevista gravada em Atenas, onde está em turnê europeia com a peça “O Julgamento”. Falou de três coisas que interessam a quem acompanha a carreira dele — o sotaque, os filhos e o tamanho da agenda —, e a primeira é a que explica as outras duas.
É a temporada mais movimentada da vida profissional do baiano. Ele foi o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de melhor ator, por “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, depois de vencer o Globo de Ouro e o Critics Choice pelo mesmo papel. Em março, saiu de mãos vazias da cerimônia: a estatueta ficou com Michael B. Jordan, por “Pecadores”, e o filme brasileiro perdeu as quatro categorias em que concorria.
Wagner Moura em imagens
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“Não quero falar sem sotaque”
A frase que mais rodou da entrevista foi sobre a maneira como ele fala inglês. Moura disse que não vê sentido em apagar o sotaque para interpretar personagens em produções estrangeiras, como registrou Giuliana Mancini, no Jornal Correio:
Eu não quero falar sem sotaque. Acho que represento uma parcela gigante das pessoas que moram naquele país: gente que fala com sotaque, gente imigrante. Politicamente, me sinto muito confortável em dizer que não quero fazer isso.
Wagner Moura, no “Conversa com Bial”

Por que o sotaque é decisão de carreira, e não só de identidade
Vale entender o mecanismo, porque ele governa a vida de todo ator estrangeiro que tenta trabalhar nos Estados Unidos — e mudou muito nos últimos dez anos.
O padrão antigo era apagar. A indústria americana montou uma profissão inteira em torno disso: o dialect coach, que treina o ator até a fala dele soar “de lugar nenhum”. Quem não apagava o sotaque era empurrado para uma faixa estreita de papéis — o traficante, o imigrante recém-chegado, o vilão de fora. Sotaque marcado funcionava como teto de carreira.
O streaming derrubou o teto. Quando a audiência de uma produção passou a ser global desde o primeiro dia, falar como americano deixou de ser requisito e virou apenas uma opção entre várias. Séries inteiras passaram a rodar em espanhol, coreano e alemão com legenda, e deram certo. Moura viveu isso na pele: fez Pablo Escobar em espanhol, no “Narcos”, e voltou ao português em “O Agente Secreto” — os dois trabalhos que o levaram a Hollywood.
O efeito prático da recusa é de posicionamento. Ao manter o sotaque, o ator deixa de disputar o papel genérico e passa a ocupar um lugar específico: o do sujeito que veio de fora e continua vindo de fora. É uma faixa menor de personagens, mas é uma faixa em que ele não tem concorrência de mil atores americanos. Quem apaga o sotaque compete com todo mundo; quem mantém, compete com pouca gente — e essa é a parte que a fala dele não diz, mas a agenda dele demonstra.
Os filhos entrando na profissão
Moura tem três filhos com a jornalista Sandra Delgado: Bem, 19, Salvador, 16, e José, 14. Os dois mais velhos já começaram, e ele contou como, em entrevista apurada por Nicoly Bastos, na CNN Brasil.
Bem, que estuda cinema, estreia como ator em “Elizabeth Costello”, dirigido por Monique Gardenberg, ao lado de Marieta Severo e Humberto Carrão. Passou por teste. Salvador fez uma participação em vídeo dentro do espetáculo “Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, a peça do próprio pai.
Disseram: “Quer fazer?”, ele disse “Quero” e foi superbem. Achei linda a participação que ele faz na peça.
Wagner Moura, sobre o filho Salvador
“Os fatos não importam mais”
A peça que ele leva pela Europa é “O Julgamento”, criada com Cristiane Jatahy e Lucas Paraízo a partir de “Um Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen — texto de 1882 sobre um médico que descobre a água contaminada de uma cidade e é destruído por avisar. Foi por aí que a conversa chegou à polarização, segundo o O Tempo.
Eu lembro de uma época em que esquerda e direita brigavam, discutiam, mas estavam vendo o mesmo fato. Hoje, os fatos não importam mais. Não sei o que fazer. Se os fatos deixam de ser relevantes, deixam de existir, e passam a existir versões da realidade, se eu tenho a minha realidade e você tem a sua, e agora?
Wagner Moura, no “Conversa com Bial”
Os sete trabalhos que ele tem pela frente
O levantamento é do Papo de Cinema, e explica o tamanho da agenda:
- “Star Wars: Maul – Lorde das Sombras” — série animada da Lucasfilm no Disney+, em que ele dubla o capitão Brander Lawson.
- “Flesh of the Gods” — de Panos Cosmatos, com Kristen Stewart e Elizabeth Olsen, sobre um casal que larga a vida de luxo na Los Angeles dos anos 1980.
- “11817” — ficção científica de Louis Leterrier, com Greta Lee, sobre uma casa que vira prisão.
- “The Last Day” — drama de Rachel Rose inspirado em Virginia Woolf, com Alicia Vikander e Victoria Pedretti.
- “Last Night at the Lobster” — que ele dirige e protagoniza, com Brian Tyree Henry, Elisabeth Moss e Sofia Carson.
- “Angicos” — de Felipe Hirsch, em que interpreta Paulo Freire no Rio Grande do Norte de 1963.
- “Gosto de Cereja” — refilmagem, por Lisandro Alonso, do longa de Abbas Kiarostami que venceu Cannes em 1997.
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O que a Foka achaManter o sotaque é a jogada mais esperta que Wagner Moura fez desde o “Narcos”, e não é por bravata. Ator brasileiro que apaga o sotaque entra numa fila de dez mil concorrentes americanos para o mesmo papel; ator que mantém entra numa fila de poucos. Ele transformou o que a indústria tratava como defeito em assinatura — e a lista de sete produções, com um filme dirigido por ele no meio, é o extrato bancário dessa decisão. A derrota no Oscar em março doeu no Brasil e não mudou nada na agenda dele. Isso diz mais do que a estatueta diria.
— Cláudia Fofoka





