Silvia Buarque revela segundo câncer e dupla mastectomia
Filha de Chico Buarque e Marieta Severo falou pela primeira vez sobre o segundo câncer de mama, a mastectomia dupla e seis cirurgias em três anos e meio.
- Silvia Buarque, 57, falou pela primeira vez sobre o câncer de mama: foi o segundo, oito anos depois do primeiro.
- Ela optou por mastectomia dupla com reconstrução e passou por seis cirurgias em três anos e meio, sem parar de atuar.
- Decidiu tornar a história pública depois que uma amiga atriz recebeu o mesmo diagnóstico: “Eu não tinha ninguém para conversar”.
Silvia Buarque tirou um tumor do seio direito e fez radioterapia em 2014. Oito anos depois, um exame de rotina apontou microcalcificações na mamografia. Os médicos apostaram que fossem benignas. A biópsia disse o contrário. Do outro lado dessa notícia vieram uma mastectomia dupla, reconstrução mamária e seis cirurgias ao longo de três anos e meio — e só agora, aos 57, a atriz decidiu contar tudo isso em público, em entrevista ao programa “Conversa Vai, Conversa Vem”, do jornal O Globo.
Eu sou várias coisas: mulher, mãe, atriz, brasileira, fluminense, ariana, Portela e sou mastectomizada. Entendi que isso vai me acompanhar para sempre.
Silvia Buarque, ao O Globo
Filha de Chico Buarque e Marieta Severo, ela não interrompeu a carreira. No período das cirurgias gravou as séries “Impuros” e “Betinho — No Fio da Navalha”, fez os filmes “Entre os Dias” e “O que Resta de Nós” e esteve em cartaz com a peça “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe”, que descreveu como o espetáculo que salvou sua vida: “Não teria produzido essa peça se não estivesse vivendo tudo isso. A vida me devolveu”. Os detalhes da entrevista foram distribuídos pela Folhapress em texto assinado por Leonardo Volpato.
Por que ela resolveu falar agora
O empurrão veio de fora. A atriz Marina Vianna, amiga dela, está enfrentando o mesmo diagnóstico agora, e disse a Silvia o quanto o exemplo tinha ajudado. Foi ali que a ficha caiu:
Ela me disse que a ajudei muito. Me deu a dimensão de como eu podia ser um farol para alguém. Quando fui fazer a mastectomia dupla, eu não tinha ninguém para conversar.
Silvia Buarque
A referência que ela teve na hora foi Angelina Jolie, que virou “musa” no processo — o fato de uma das mulheres mais fotografadas do mundo ter passado pela mesma cirurgia funcionou como permissão. A diferença entre os dois casos importa: Jolie não tinha câncer quando operou. Ela é portadora de mutação no gene BRCA1 e fez uma mastectomia preventiva, de redução de risco. Silvia operou com doença diagnosticada. Mesma cirurgia, decisões clínicas diferentes.
O que são microcalcificações — e por que a mão não acha
Microcalcificações são pontinhos de cálcio depositados no tecido da mama. Aparecem na mamografia como grãos brancos, com menos de meio milímetro, e a esmagadora maioria é benigna — resto de inflamação antiga, alteração normal do envelhecimento da mama.
O que muda o alerta não é a existência delas, é o desenho. Pontos espalhados e arredondados costumam ser tranquilos. Já um agrupamento denso num só ponto, com formatos irregulares entre si, ou uma distribuição em linha e ramificada — como se seguisse o caminho de um duto — é o padrão que faz o radiologista pedir investigação. Esse padrão pode ser o único sinal de um carcinoma ductal in situ, um tumor que ainda está dentro do duto e não forma caroço.
É por isso que a história dela começa num exame de rotina, e não num autoexame. Apalpar a mama continua valendo para conhecer o próprio corpo e notar mudanças, mas existe um tipo de câncer que a mão não alcança e a máquina vê. E imagem sozinha não fecha diagnóstico: quem diz se é benigno ou maligno é a biópsia, feita com agulha guiada pela própria mamografia. A espera por esse resultado é o pedaço que Silvia descreveu como o pior de todos — “o não diagnóstico, a espera, a expectativa, o medo”.

Por que tirar as duas mamas
Câncer em uma mama não obriga a retirar a outra. A mastectomia dupla entra em cena quando o cálculo de risco muda de patamar, e há um conjunto conhecido de situações:
- Doença extensa ou em vários focos dentro da mesma mama, que inviabiliza a cirurgia conservadora.
- Segundo câncer em quem já tratou um — o histórico prévio pesa na conta do que pode vir depois.
- Mutação genética nos genes BRCA1 ou BRCA2, ou histórico familiar forte, que elevam muito o risco na mama do outro lado.
- Escolha da paciente, depois de conversar com a equipe sobre o que a cirurgia diminui de risco e o que ela cobra em troca.
Nenhum desses itens é automático, e é justamente por isso que a decisão passa por ginecologista, mastologista e oncologista — foi o trio que Silvia disse ter consultado antes de operar.
Reconstrução é direito garantido em lei
Este é o ponto que mais escapa de quem acabou de receber o diagnóstico. A reconstrução mamária depois de mastectomia por câncer não é procedimento estético: é direito previsto na Lei 9.797, de 1999, que obriga o SUS a oferecer a cirurgia reparadora. A Lei 13.770, de 2018, apertou a regra — quando há condição técnica, a reconstrução deve ser feita no mesmo ato cirúrgico da retirada, e o direito inclui a cirurgia de simetrização da outra mama e a reconstrução da aréola e do mamilo. Planos de saúde também são obrigados a cobrir.
E aqui aparece a explicação para um número que assusta na história dela: seis cirurgias. Reconstruir mama raramente é uma operação só. O caminho comum é por etapas — colocação de expansor para acomodar a pele, troca por prótese definitiva, simetrização do outro lado, reconstrução da aréola, e eventuais revisões pelo caminho. Cada etapa é uma internação, uma recuperação, um trabalho adiado. Três anos e meio de agenda.
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O que a Foka achaSilvia levou três anos e meio para contar, e o motivo que ela deu é o mais revelador da entrevista: quando operou, não tinha com quem conversar. Faltou a ela exatamente o que ela está oferecendo agora. Sobrenome famoso não abrevia fila de biópsia nem encurta recuperação — o que ele faz é alcance. Ela demorou para usar o dela, e usou pela razão certa.
— Cláudia Fofoka