Allan “Puro Osso” morre aos 34: o que mata um atleta dormindo
Lutador do UFC foi encontrado sem vida na manhã de segunda (3), após aparente ataque cardíaco durante o sono. O que a medicina sabe sobre morte súbita em atleta jovem.
- Allan “Puro Osso” Nascimento, peso-mosca do UFC, morreu aos 34 anos na manhã de segunda-feira (3), em São Paulo.
- Segundo o UFC, ele foi encontrado irresponsivo após um “aparente ataque cardíaco” enquanto dormia; a causa não foi confirmada oficialmente.
- Tinha 22 vitórias e 7 derrotas, vinha do jiu-jítsu e fazia o corner de Charles do Bronx.
O MMA brasileiro acordou de luto nesta segunda-feira. Allan “Puro Osso” Nascimento, lutador paulistano do UFC, morreu aos 34 anos. A organização informou que ele foi encontrado irresponsivo pela manhã, depois de um aparente ataque cardíaco durante o sono, e que a morte foi declarada no local, apesar do atendimento médico.
É a frase que trava qualquer leitor: um atleta profissional de 34 anos, peso-mosca, em rotina diária de treino, morre dormindo. A pergunta que mais apareceu nas buscas desde ontem não é sobre o cartel dele — é como isso acontece. Tem resposta, e ela é menos misteriosa do que parece.
Quem era Allan “Puro Osso”
Allan competia na categoria peso-mosca, o limite de 57 quilos, e chegou ao UFC em outubro de 2021. A estreia foi uma derrota para o russo Tagir Ulanbekov, no UFC 267. Depois disso engatou quatro vitórias seguidas — o tipo de sequência que costuma abrir caminho para o ranking, mas que no caso dele foi repetidamente interrompida por lesões e cancelamentos de luta.
O cartel profissional fechou em 22 vitórias e 7 derrotas, com 15 dos triunfos por finalização — a assinatura de quem vem do jiu-jítsu. Ele treinava na Chute Boxe Diego Lima, em São Paulo, e era parceiro de treino e corner de Charles do Bronx, ex-campeão do peso-leve. Começou no MMA com o apoio do pai, que morreu pouco antes da estreia no Ultimate e virou a homenagem que ele repetia a cada luta.

A última aparição no octógono foi em 20 de junho, em Las Vegas, derrota para Mitch Raposo por decisão dividida. A última vitória, no UFC Vegas 110, rendeu bônus de Performance da Noite pela finalização em Cody Durden. A informação foi apurada pelo repórter Gustavo Loio, do Lance!, e confirmada pela redação do Terra.
Hoje perdi um irmão que a luta me deu. Obrigado por sempre estar junto, dividir o tatame e o corner. Só tenho palavras de gratidão por ter você ao meu lado.
Charles do Bronx, em publicação nas redes sociais
Ataque cardíaco e parada súbita não são a mesma coisa
A nota do UFC fala em “aparente ataque cardíaco”, e a expressão foi repetida em todas as manchetes. Só que na medicina são dois eventos distintos, e a diferença explica muita coisa.
- Infarto é problema de encanamento. Uma artéria que alimenta o músculo do coração entope, aquele pedaço do músculo para de receber sangue e morre. É o quadro clássico do adulto com placa de gordura acumulada nas artérias ao longo de décadas.
- Parada cardíaca súbita é problema elétrico. O coração está estruturalmente ali, mas o ritmo desanda — normalmente numa arritmia grave — e ele deixa de bombear. A perda de consciência vem em segundos.
Em pessoa jovem e treinada, o segundo cenário é de longe o mais frequente. Artéria entupida por placa leva tempo e fatores de risco que um atleta de alto rendimento raramente acumula. Já a falha elétrica não pede aviso nem histórico: pode acontecer no primeiro episódio da vida, num corpo que passou no exame do mês passado.
Por que um corpo em pico de forma para
As causas mais identificadas em morte súbita de atletas com menos de 35 anos são um grupo pequeno e conhecido:
- Cardiomiopatia hipertrófica. A parede do coração fica anormalmente espessa, geralmente por causa genética. É a causa mais frequentemente identificada, e costuma ser silenciosa até o evento.
- Anomalia congênita de artéria coronária. A artéria nasce em posição errada e pode ser comprimida durante o esforço.
- Miocardite. Inflamação do músculo cardíaco, quase sempre depois de uma infecção viral banal — inclusive uma que a pessoa achou que era só gripe.
- Canalopatias. Síndrome do QT longo, Brugada e parentes: defeitos nos canais de íons que conduzem o impulso elétrico. O coração é normal na autópsia, e é por isso que parte dos casos fica sem causa anatômica.
Há ainda um detalhe cruel do esporte de alto rendimento: o treino pesado aumenta a massa do coração por adaptação normal — é o chamado coração de atleta. Essa hipertrofia saudável se parece, num exame superficial, com a hipertrofia doente. Distinguir uma da outra é justamente a parte difícil do rastreamento.
O peso que se corta na véspera
A causa da morte de Allan não foi confirmada oficialmente. Mas há um fator próprio das lutas que a cardiologia esportiva acompanha há anos: o corte de peso.
Peso-mosca vale até 57 quilos. Para bater esse número, é rotina no MMA perder vários quilos de água na semana da pesagem — sauna, roupa térmica, restrição de líquido — e reidratar nas horas seguintes. O que sai junto com a água são eletrólitos: potássio, sódio, magnésio. E é exatamente o desequilíbrio desses minerais que desestabiliza o sistema elétrico do coração. Repetir esse ciclo dezenas de vezes ao longo de uma carreira é uma sobrecarga que nenhum outro esporte impõe na mesma dose.
O exame que custa pouco
O rastreamento que muda estatística é barato: eletrocardiograma de 12 derivações, somado a uma boa anamnese familiar. A Itália tornou o exame obrigatório para atletas federados e viu a taxa de morte súbita cair de forma expressiva nas décadas seguintes — é o experimento natural mais citado da área. Quando o eletro mostra algo, o ecocardiograma entra para dizer o que é.
Fora do esporte profissional, a lista de sinais que merecem cardiologista é curta e vale para qualquer pessoa que treina:
- Desmaio ou quase-desmaio durante o esforço — não depois, durante. É o sinal mais importante de todos.
- Palpitação forte e desordenada que aparece sem relação com intensidade.
- Dor no peito ou falta de ar desproporcional ao treino que você já fazia.
- Caso de morte súbita ou parada cardíaca na família antes dos 50 anos, inclusive parente que “morreu dormindo”.
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O que a Foka achaLutador de UFC faz bateria de exames — mas faz porque tem luta marcada. O calendário médico do esporte orbita o combate, não o atleta: aperta na semana da pesagem e afrouxa quando não há data. Allan morreu num mês sem luta, dormindo, longe de qualquer octógono. Fica a pergunta de quem cuida do coração de um atleta nos meses em que ele não está rendendo dinheiro para ninguém.
— Cláudia Fofoka