Ratinho chama Tiago Piquilo de “cara de viado” ao vivo no SBT
O apresentador reparou no cabelo descolorido do cantor e soltou a frase em rede nacional. Piquilo tentou desconversar e a atração seguiu como se nada tivesse acontecido. É o segundo episódio do programa em 48 horas — e explica por que casos assim quase nunca chegam à emissora.
- No Programa do Ratinho de quarta-feira (5), o apresentador viu o cabelo platinado de Tiago Piquilo, da dupla Hugo & Tiago, e disse ao vivo: “Meu Deus. Você tá com uma cara de viado”.
- O cantor tentou desconversar — “é um tal de inventar moda, né?” — e o programa seguiu sem correção. Ratinho e SBT não se manifestaram.
- Desde 2019, injúria por orientação sexual é equiparada a racismo pelo STF. Mesmo assim, quase nada acontece com a emissora — e a razão está em quem regula o quê.
O Programa do Ratinho recebeu a dupla sertaneja Hugo & Tiago na noite de quarta-feira (5), no SBT. Ao reparar que Tiago Piquilo tinha descolorido o cabelo, o apresentador perguntou se ele havia pintado. O cantor confirmou. Ratinho então respondeu, ao vivo: “Meu Deus. Você tá com uma cara de viado”.
Visivelmente sem graça, Piquilo tentou tirar o peso da cena com uma frase de auditório: “é um tal de inventar moda, né?”. Ratinho concordou — “como inventam moda esses dois” — e seguiu a atração como se tivesse comentado a previsão do tempo. Não houve retratação no ar. Até a publicação desta matéria, nem o apresentador nem o SBT haviam se manifestado.
Não foi um deslize isolado
Na véspera, no mesmo programa, o quadro Gol Show já havia rendido repercussão por comentários sobre o figurino de Xuxa em turnê, classificados nas redes como misóginos e homofóbicos. Dois episódios em 48 horas. E há um histórico: neste ano, ao comentar a eleição da deputada federal Erika Hilton para a Comissão da Mulher, Ratinho declarou que não achava justo “com tanta mulher” e emendou que “ela não é mulher, ela é trans”.

O que a lei diz — e por que isso raramente chega à emissora
Desde junho de 2019, quando o Supremo Tribunal Federal julgou a ADO 26 e o Mandado de Injunção 4733, a homofobia e a transfobia são enquadradas na Lei do Racismo até que o Congresso legisle sobre o tema. Na prática, isso significa que ofender alguém por orientação sexual deixou de ser injúria comum e passou a ter o tratamento de injúria racial — crime com pena maior e, desde 2023, imprescritível e inafiançável.
Aqui está o ponto que quase nenhuma cobertura explica: essa é uma responsabilização da pessoa, não do canal. E ela depende de alguém acionar a Justiça — em regra, a própria pessoa ofendida. Do lado da emissora, o vazio é maior do que parece. A Anatel regula a outorga e o sinal, não o conteúdo. A classificação indicativa do Ministério da Justiça define horário e faixa etária, não o que se pode dizer. O Conar cuida de publicidade, não de programa. O Conselho de Comunicação Social, previsto na Constituição, passou anos desativado. Não existe, hoje, um órgão que multe uma emissora por uma frase dita ao vivo.
O que sobra são três caminhos, todos lentos e nenhum automático: representação no Ministério Público Federal, que pode propor ação civil pública por dano moral coletivo; processo movido pela pessoa ofendida; e pressão de anunciante, que é o único mecanismo com resposta em horas em vez de anos. É por isso que casos assim terminam quase sempre no mesmo lugar — repercussão por dois dias e nenhuma consequência formal.
Por que “brincadeira de auditório” não é atenuante
A defesa habitual é o tom: era piada, era espontaneidade, é o jeito do programa. O problema é que o formato de auditório funciona há décadas com uma engrenagem específica — atribuir ao corpo ou ao gesto de alguém um rótulo que vale como sentença, e fazer isso diante de milhões de pessoas, sem direito de resposta e sem tempo para o convidado reagir. Piquilo tinha duas opções em rede nacional: engolir ou brigar com o anfitrião no meio da entrevista dele. Escolheu engolir, que é o que quase todo mundo escolhe. A assimetria é o método, não o acidente.
O que a Foka acha: não foi gafe, não foi idade, não foi “outra época”. Foi a frase funcionando exatamente como sempre funcionou — e o silêncio do SBT depois é a parte que interessa. Uma emissora que não corrige no ar está dizendo ao público que aquilo cabe na programação dela. E como não existe órgão nenhum para multar isso, quem decide o custo é anunciante e audiência, ou seja, nós. Tiago Piquilo pintou o cabelo de platinado e foi chamado de viado em rede nacional por causa disso. Quem devia estar sem graça naquele estúdio não era ele.
— Cláudia Fofoka
Com informações de Sara York, no Brasil 247, Raphael Araujo, no OFuxico, e da coluna Kátia Flávia, no Jornal de Brasília. Leia também o caso Carol Lekker no Fofocalizando e a alfinetada de Mara Maravilha em Xuxa. Mais em TV e Realities.